Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124

Descubra como a amizade entre cães e humanos é mais antiga do que se pensava, com evidências genéticas revelando laços com mais de 14 mil anos.
A relação entre cães e humanos é um dos laços mais antigos e profundos que conhecemos. Embora cientistas já soubessem que os cães foram o primeiro animal a ter contato com os seres humanos, antes mesmo do desenvolvimento da agricultura, pesquisas recentes revelaram que essa parceria existe há significativamente mais tempo do que se imaginava.
Novos estudos publicados em março de 2026 na revista científica Nature compararam a genética de caninos encontrados em sítios arqueológicos europeus. Os resultados indicam que, há mais de 14 mil anos, os cães já eram geneticamente distintos dos lobos e demonstravam uma proximidade surpreendente com os humanos.
Esses achados científicos vão além de descobertas anteriores. Sabe-se que, mesmo antes da agricultura, os cães já eram parte integrante de muitas culturas antigas. Possivelmente, eles auxiliavam em tarefas essenciais como guarda, caça e até em rituais cerimoniais.
Lachie Scarsbrook, paleogeneticista da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, Alemanha, explica: “Uma vez que os cães se estabelecem, eles se vinculam às populações humanas ao longo do tempo”. Ele compara esses animais aos “cachorros do exército suíço” pela sua notável capacidade de adaptação a diversos papéis culturais, semelhantes aos que associamos aos cães nos dias atuais.
A arqueologia já havia encontrado caninos enterrados ao lado de humanos, datados de até 34 mil anos atrás. No entanto, William Marsh, paleogeneticista do Museu de História Natural de Londres, Inglaterra, ressalta que a simples presença de um animal enterrado junto a um humano não garante que se trate de um cão domesticado. “Enterrar um animal junto a humanos é uma estratégia arriscada para identificar algo como doméstico. Sabemos que, há milênios, as pessoas enterram animais selvagens junto a humanos”, afirma.
Além disso, a semelhança física entre esqueletos de cães e lobos pode ser enganadora, especialmente quando se analisam apenas fragmentos de crânios ou dentes. Marsh acrescenta: “Muitos supostos cães muito antigos, quando analisados por meio de DNA, na verdade revelam-se lobos”.
Estudos anteriores já haviam datado o cão mais antigo com certeza em cerca de 10.900 anos atrás, época em que, segundo Marsh, os “cachorros já eram geneticamente muito, muito diferentes dos lobos”. Isso sugere a presença canina na Europa milhares de anos antes do Paleolítico Superior (entre 12 mil e 50 mil anos atrás).
Anders Bergström, geneticista evolucionista da Universidade de East Anglia, Inglaterra, comentou a busca por esses animais: “Imaginamos que, se os cães estavam na Europa tão cedo, então haveria mais deles”. A equipe de Bergström analisou amostras de DNA de 216 canídeos enterrados perto de humanos, com idades que variam de 46 mil a 5 mil anos.
A amostra mais antiga confirmada como sendo de um cão tinha 14.200 anos e foi encontrada na Suíça. Paralelamente, outro grupo de pesquisa, liderado por Scarsbrook e Marsh, analisou oito restos mortais de canídeos da Turquia, Irã, Sérvia e Inglaterra, datados entre 15.800 e 8.900 anos atrás. Eles descobriram que seis dessas amostras eram de cães, todos geneticamente semelhantes, indicando uma linhagem consistente de cachorros na Europa há 14.300 anos.
Embora os estudos não detalhem a aparência exata desses cães primitivos, é provável que eles não se parecessem com as raças fofas que conhecemos hoje. “Suspeitamos que eles se assemelhavam a lobos menores”, afirma Scarsbrook. Contudo, a persistência de seus genes permitiu que essa linhagem evoluísse, contribuindo para muitas das raças modernas, como o Pastor Alemão e o São Bernardo.
O grupo de Bergström investigou como o DNA canino mudou após o surgimento da agricultura, há cerca de 12 mil anos no Crescente Fértil, Oriente Médio. A migração em larga escala de pessoas para a Europa, trazendo consigo animais domesticados e plantações, resultou em uma substituição massiva da ancestralidade genética humana.
No entanto, a análise de DNA revelou que os agricultores não substituíram completamente os cães antigos. “Na verdade, eles os incorporaram às suas próprias populações caninas”, explica Bergström. Isso demonstra a resiliência e a integração dos cães nas novas sociedades.
A pesquisa de Marsh, Scarsbrook e colegas focou na genética espacial e em três culturas distintas da época: a Magadeleniana (Europa Ocidental), a Epigravetiana (Europa Central) e os caçadores-coletores da Anatólia.
Em todas essas culturas, os cães analisados apresentavam semelhanças notáveis, sugerindo um cuidado humano similar. Na Anatólia, por exemplo, cães eram enterrados junto aos seus donos, “sugerindo que eles tinham uma espécie de personalidade semelhante”, diz Scarsbrook.
A cultura Magadeleniana, conhecida por práticas como o canibalismo funerário, também demonstrava um tratamento simbólico aos cães. Crânios de cães desse período apresentavam marcas de desmembramento, semelhantes às encontradas em restos humanos, indicando um profundo respeito e uma conexão que vai além da simples utilidade.
“Todos eles parecem tratar esses cães de uma maneira muito, muito simbólica, semelhante a como tratamos os nossos”, afirma Marsh.
Esses estudos genômicos são fundamentais para entender a evolução das populações caninas. Contudo, o momento exato da domesticação do cão permanece um mistério. Krishna Veeramah, geneticista populacional da Universidade Stony Brook, Nova York, aponta que a domesticação é um processo longo, que se desenrola ao longo de várias gerações.
A descoberta de ossos ainda mais antigos será crucial para rastrear a divergência entre cães e lobos. Até lá, o nascimento do primeiro cão continua a nos fascinar. Scarsbrook conclui: “Dá para imaginar que isso abre uma nova parte do nosso cérebro. Temos esses cães com os quais antes estávamos em conflito. Agora temos essa espécie que agora está, de certa forma, em conluio conosco, e isso é fascinante.”