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Descoberta inédita: cachorro-do-mato é flagrado usando insetos como 'remédio' no interior de SP, em um raro caso de zoofarmacognosia documentado pela UNIFRAN.
Um comportamento surpreendente de automedicação foi flagrado no interior de São Paulo: um cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) foi observado manipulando insetos, como grilos e baratas, não para se alimentar, mas para possivelmente aplicar substâncias terapêuticas em seu corpo. Essa descoberta, que quebra paradigmas sobre o comportamento animal selvagem, foi detalhada em um estudo da Universidade de Franca (UNIFRAN), conforme noticiado pelo G1 em março de 2026.
O ineditismo do estudo, conduzido por pesquisadores como o biólogo Alex Luiz de Andrade Melo e a estudante de medicina veterinária Giovana Rodrigues Cintra, reside em três aspectos principais: a espécie envolvida, o tipo específico de comportamento e o contexto periurbano da observação. As imagens capturadas por câmeras automáticas revelam uma interação não alimentar, onde o animal esfrega ou lambe os insetos por minutos antes de soltá-los, um registro sem precedentes para a espécie.
Os registros mostram dois episódios claros em que o cachorro-do-mato manipula insetos ainda vivos por dois ou três minutos. Em um momento, ele esfrega o corpo contra um grilo; em outro, lambe repetidamente uma barata, utilizando a boca, mas sem qualquer ingestão. O biólogo Alex Luiz de Andrade Melo, pesquisador da UNIFRAN, explica que “não era um contato aleatório. O animal manipulava o inseto de forma específica, esfregando ou lambendo, e sem consumi-lo, o que foge completamente de um comportamento alimentar.”
“O contato sem ingestão sugere que o objetivo pode ser aplicação tópica, possivelmente para controle de ectoparasitas ou irritações cutâneas”, explica Melo.
Este fenômeno é conhecido como zoofarmacognosia, a capacidade de animais selvagens e alguns domésticos de se automedicarem. A hipótese é sustentada pela ciência, já que insetos como baratas e grilos são conhecidos por possuir compostos químicos com potencial antimicrobiano, antifúngico ou repelente de parasitas. Isso indica uma possível estratégia para aliviar incômodos ou combater infecções na pele.
O monitoramento que levou a esta descoberta foi realizado de forma não invasiva, utilizando câmeras automáticas em uma área de transição entre a cidade e fragmentos de Cerrado. Esse ambiente, denominado periurbano, revelou-se um “laboratório ecológico” por sua rica biodiversidade e proximidade com o monitoramento constante.
Para Alex Melo, esses locais aumentam a probabilidade de registro de eventos raros. “A presença de câmeras e a proximidade com pesquisadores faz com que eventos raros sejam mais facilmente documentados”, afirma. Contudo, ele enfatiza que a descoberta em um ambiente periurbano não significa que o comportamento tenha surgido ali, sendo provável que ocorra também em ambientes naturais, mas de forma despercebida.
A pesquisa começou de forma inesperada, a partir de imagens feitas pelo fotógrafo Miguel Veronez, cujo trabalho casual se tornou uma valiosa fonte de dados. A estudante de medicina veterinária Giovana Rodrigues Cintra, autora do artigo, foi quem percebeu a particularidade da interação. “Percebemos que o animal não estava se alimentando. Mesmo sendo uma espécie que consome insetos, naquele caso ele apenas interagia com eles, sem ingestão”, conta Cintra.
A repetição do padrão em diferentes registros reforçou a hipótese de um comportamento não alimentar, mas com outra finalidade. Para Giovana, o estudo ressalta a complexidade ainda pouco explorada do comportamento dos animais silvestres. O próximo passo da investigação incluirá análises químicas para comprovar a função medicinal dos compostos presentes nos insetos manipulados pelo cachorro-do-mato.
Essa experiência, que começou com “pequenos detalhes”, segundo a estudante, abriu portas para uma compreensão mais profunda da inteligência e capacidade de adaptação dos animais. O cachorro-do-mato, amplamente distribuído na América do Sul, continua a nos surpreender com sua biologia complexa.