Cão ancestral, o mais antigo do mundo, com 15.800 anos, em um sítio arqueológico na Turquia.

Cachorro mais antigo do mundo tem 15.800 anos, mas lacuna sombria permanece

Descobertas genéticas revelam o cão mais antigo conhecido com 15.800 anos, mas mistérios sobre a domesticação canina persistem. Saiba mais.

Novas pesquisas genéticas trouxeram à luz a identidade do cão mais antigo conhecido, cujos restos foram datados em impressionantes 15.800 anos. Encontrado no sítio arqueológico de Pinarbasi, na Turquia, este canino ancestral supera em cerca de 5.000 anos o cão mais antigo previamente confirmado por estudos genéticos. Essa descoberta significativa lança luz sobre a profunda e antiga conexão entre humanos e cães, mas, paradoxalmente, aprofunda um mistério: as circunstâncias exatas, o momento e o local da domesticação canina ainda permanecem envoltos em incertezas.

A datação deste cão antigo, juntamente com outros espécimes de idade semelhante encontrados em sítios europeus, sugere que os cães já estavam amplamente disseminados e integrados à vida humana milênios antes do desenvolvimento da agricultura. As pesquisas foram detalhadas em dois artigos científicos publicados na revista Nature.

Cão ancestral descoberto na Turquia

Os ossos encontrados em Pinarbasi, um local utilizado por caçadores-coletores, permitiram aos pesquisadores identificar este canino notável. William Marsh, pesquisador do Instituto Francis Crick e coautor de um dos estudos, explicou que evidências de DNA indicam a presença de cães em diversas localidades da Eurásia Ocidental há pelo menos 18.000 anos. Esses animais já apresentavam diferenças genéticas significativas em relação aos lobos da época.

“Supõe-se que as populações de cães e lobos tenham divergido muito antes, provavelmente antes do último máximo glacial (da Era do Gelo), ou seja, antes de 24.000 anos atrás. Embora, ainda haja um alto grau de incerteza”, afirmou Marsh. O cão é considerado o primeiro animal a ser domesticado pelo ser humano, precedendo outros como cabras, ovelhas, gado e gatos.

“Os cães estiveram ao nosso lado enquanto os humanos passavam por grandes transições de estilo de vida e sociedades complexas surgiam.”

Anders Bergström, da Universidade de East Anglia e principal autor do outro estudo, destaca a natureza peculiar da relação homem-cão. Diferentemente de muitos outros animais domesticados, os cães nem sempre tiveram funções ou propósitos claramente definidos. Bergström sugere que, muitas vezes, seu papel principal pode ter sido simplesmente o de companhia.

Maior estudo genético de cães antigos

A equipe de Bergström conduziu o que é descrito como o maior estudo desse tipo até hoje, analisando geneticamente 216 restos mortais antigos – 46 cães e 95 lobos – com idades entre 46.000 e 2.000 anos, provenientes de diversos países europeus e da Turquia. O método empregado permitiu distinguir geneticamente cães de lobos em restos ósseos antigos, o que é crucial dada a semelhança física entre eles nos estágios iniciais da domesticação.

O cão mais antigo identificado por esta equipe data de 14.200 anos atrás e foi encontrado na caverna de Kesslerloch, na Suíça. As análises genéticas também revelaram que os cães europeus mais antigos compartilham uma origem comum com cães da Ásia e de outras partes do mundo, indicando que as diversas populações caninas não surgiram de eventos de domesticação independentes.

Evidências de valorização e tratamento especial

O cão de Pinarbasi, em particular, oferece pistas sobre o quanto esses animais eram valorizados pelos caçadores-coletores. Marsh apontou que, no sítio arqueológico, há evidências de sepultamentos conjuntos de humanos e cães. Além disso, há indícios de que os habitantes de Pinarbasi alimentavam seus cães com peixe.

Um dos casos mais intrigantes mencionados é o dos restos mortais encontrados na Caverna de Gough, na Inglaterra. Ali, foram identificados modificações post-mortem nos restos do cachorro que são comparáveis a comportamentos funerários humanos encontrados no mesmo local, que incluem desmembramento e até mesmo canibalismo como ritual. Embora a intenção para os cães possa não ter sido o consumo, a semelhança nos tratamentos sugere um tratamento diferenciado.

Os cães de Pinarbasi e Gough apresentaram parentesco mais próximo com os ancestrais de raças europeias e do Oriente Médio atuais, como boxers e salukis, do que com raças árticas como os huskies siberianos. Pesquisadores especulam que, além de companhia, esses cães ancestrais podem ter auxiliado na caça ou funcionado como sistemas de alarme primitivos.

Mistérios persistentes da domesticação

Apesar dos avanços significativos, as grandes questões sobre quando, onde e por que a domesticação canina ocorreu ainda permanecem, em grande parte, sem resposta definitiva. “Acreditamos que provavelmente aconteceu em algum lugar da Ásia, mas o local exato ainda precisa ser determinado”, concluiu Bergström. A lacuna sombria na história da domesticação canina continua sendo um campo ativo de pesquisa e fascínio.

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